terça-feira, 15 de março de 2011

dancing-river


seguindo o fluxo do rio
dançando com ele

simplesmente rio
simplesmente eu
com novo nome
sem rótulos


esta é a última postagem desse blog, mas continuem me seguindo em outro endereço e com novo nome:

estarei em http://dancing-river.blogspot.com (nos links deste blog)

meu nome é thirak sarita.

irmã morte

vou discreta
como quem sai pela porta dos fundos

escapo do mundo aos poucos
vazia de anseios
cheia de compaixão

eu me despeço dançando
livre de mim mesma


angela nabuco

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

mamãe jogando xadrez



existem momentos raros
onde tudo é mágica.

é quando o mundo pára
desfocado
em torno da ação principal
onde tudo acontece.

Deus mora ali


angela nabuco

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

forma e essência


a essência brinca com a forma, massa de moldar:

ora vida, ora morte, às vezes luz, outras sombra.


pura inconstância que desliza no imponderável

e caminha para além do que pode ser visto


onde a verdade dorme

à espera de quem a queira aceitar

e compreender


angela nabuco

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

neste janeiro


neste janeiro

o jardim canta em quietude
e convida ao banquete do silêncio

toalha branca de nuvem
gotas choradas sobre o verde
flores falando sem palavras
da própria beleza

nele, sou a convidada
que se dilui, inda que inteira

a mim, pertence a paz

angela nabuco

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

porque a vida sempre vale a pena

minha mãe aos 92 anos ganhando no BINGO

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

stay!

até


ainda vejo o turbilhão
no pedaço de mim
agarrado em algum resto de naufrágio

eu me despeço
da correria dos grandes projetos
das preocupações inúteis
das cobranças descabidas
do desejo das coisas

quem sabe um outro nome me servisse,
daqueles comuns, maria qualquer
misturada a tantas outras

cabelo sem tintura
mais brilho nos olhos
mais leveza nos pés

antevejo a liberdade de mim
para poder cantar o outro
por mais singular seja
porque todos os opostos
são de um só corpo e substância
no avesso de todos nós

angela nabuco

muro de carne

da performance de juliana frança e leo nabuco


o mundo é feito de carne

em cada canto, um pedaço de nós

que é só
que tem pressa
que não pode
que não vale
que vive como se nada fosse

e no grito sufocado
espera a sua vez de sangrar
atrás dos muros da carne
dos filhos autômatos
da máquina gigante

angela nabuco

sábado, 27 de novembro de 2010

namastê

nabuco's zig zag

o grão de trigo

“se o grão de trigo que cai na terra não morrer, permanecerá só; mas se morrer produzirá muito fruto.” jesus


existe um lugar

onde se morre para nascer

onde o presente é o tempo certo

de conjugar os verbos

onde a essência é mais do que a forma

onde solidão é solitude

onde a compaixão vem sem esforço

porque todos são

absolutamente iguais e importantes

onde há paz apesar da guerra dos outros

onde o natal acontece todo dia

onde o vazio é completude

a alegria é parceira

e a liberdade é absoluta

um lugar em nós

onde morrendo, vivemos

e simplesmente não sabemos


angela nabuco

natal de 2010

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

umbigo


nada em mim se escandaliza
nada em mim separa ou desgosta

penetro no umbigo de cada coisa
de cada objeto banal
ou pessoa
onde a vida espia e ensina

onde nada tem nome porque é
e já sendo, eu nada espero

onde não julgo

onde me reconheço e me misturo
com o corpo de véu

livre de mim mesma


angela nabuco

foto e dripping por leo nabuco

florescer


vou
enfeitada de dor e de silêncio

o resto é sonho, poeira
e intervalo

angela nabuco

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

o netinho antonio


a vida voltando, repetida em simplicidade.

domingo, 24 de outubro de 2010

através


nada mais será escrito em maiúsculas
nada mais será feito à pressa
nada mais será dito em tom mais alto

nada mais distinguido ou destacado
onde não cabe
importância alguma ou ambição

ouvidos, olhos, corpo
atenção e transparência
parte e todo
por onde se possa passar e passear em paz

angela nabuco

tempo de criar


é tempo de criar

vem sem aviso, com a correria das formigas na mesa da cozinha

costuma chegar no setembro, com a chuva de barulho manso
no verde vigor do broto
no ovo rompido a seu tempo

vem no parto a termo
sem esperar um minuto a mais
nem antes, nem depois, mas agora

na quietude da sala que é feita de puro espaço, e das coisas que abriga

suave, no silêncio em que vou mergulhar


angela nabuco

sábado, 2 de outubro de 2010

deep into myself


da solidão surge o silêncio
tombada a resistência do último controle
entregues as camadas mais internas
ele surge
escuro
morno, o ninho do eu
pura liberdade
então, sem amarras, eu danço

angela nabuco

domingo, 19 de setembro de 2010

estranhamento


pernas, braços, visceras
carrego o corpo
às vezes leve, pesado
às vezes

dobro
aprendo-o em dor

nas despedidas morre
aos poucos

nele atravesso
a vida que tem pressa

angela me disseram
sem que angelitude
me coubesse

nesse corpo que sou eu
mas que nem
sei se me conhece

angela nabuco

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

há muito

Há muito que fui dona do mundo.

inominada

Há muito que fui dona do mundo.
Sonhava eternidades.
Emoldurei um quadro, com moldura escolhida a dedo, combinei cores, personagens.
A história de mim, com algumas bordaduras de enfeite.
Mas, com que atrevimento nele te insinuastes - tu - fantasma de realidades?
De inicio, levíssima.
Aqui e ali lascavas a moldura nas quinas.
Depois borravas o vidro com as manchas do bolor.
Alguns personagens sumiam, provisórios.
Obra tua.
Brincavas com o meu sonho, desfazendo e refazendo os nós, à vontade, na história minha.
Surgias na foto - como se ali coubesses - com teu rosto de ninguém, e te sobrepunhas aos corpos dos personagens queridos.
Sumias outras vezes, é verdade, mas deixavas o rastro no cheiro de incerteza.
Enquanto empoeiravas a cena, eu cuidava dela com cremes de beleza.
E voltavas, no oco da carne flácida, mudando o roteiro, rindo-se de mim.
À medida que me acostumava com tua presença, eu me fazia mais calma.
Como numa entrega ao amante irresistível e brutal, fui me rendendo aos poucos.
Afinal, estavas ali mesmo, cada vez mais íntima, abrindo a geladeira, deixando cair o corpo no sofá (como se teu fosse), os pés sobre a mesinha de centro.
O quadro, esse guardado, para que eu não visse, sangrando, a solidão que é minha, posse indiscutível.
Nele só restamos tu e eu, em devassa intimidade, sem que nem ao menos eu te soubesse o nome.


Angela Nabuco